Normas IFRS S1 e S2: guia completo para a adequação da sua empresa

Nos últimos anos, intensificou-se a pressão sobre o setor corporativo para reportar dados de sustentabilidade de forma estruturada e comparável. 

Investidores institucionais, órgãos reguladores e a sociedade civil estão cada vez menos interessados em comunicações genéricas e exigem mais transparência sobre como as organizações gerenciam riscos climáticos, sociais e de governança.

Até pouco tempo, o mercado sofria com a falta de uma padronização universal. As empresas tentavam se comunicar utilizando diversos frameworks simultâneos, como:

  • Global Reporting Initiative – Iniciativa de Relato Global (GRI);
  • Sustainability Accounting Standards Board – Conselho de Normas Contábeis de Sustentabilidade (SASB);
  • Task Force on Climate-related Financial Disclosures – Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD);
  • Carbon Disclosure Project – Projeto de Divulgação de Carbono (CDP).

O problema da fragmentação em frameworks

Por que essa fragmentação era um problema estratégico? Para a alta gestão, essa dispersão de normas resultava em três gargalos críticos:

  • Inconsistência de dados: a falta de métricas uniformes impedia que investidores comparassem o desempenho real entre empresas do mesmo setor, gerando incerteza na alocação de capital;
  • Ineficiência operacional: as organizações eram obrigadas a reportar os mesmos dados sob diferentes metodologias, elevando o custo de conformidade e a carga de trabalho das equipes de RI (Relações com Investidores) e Sustentabilidade;
  • Risco reputacional e de compliance: a ausência de um padrão rigoroso abria margem para interpretações ambíguas, aumentando a exposição da empresa a acusações de greenwashing (divulgações enganosas de dados sobre sustentabilidade).

Para mitigar esses problemas, foi criado o Conselho Internacional de Normas de Sustentabilidade (ISSB), sob a governança da Fundação de Normas Internacionais de Relatórios Financeiros (IFRS).

O objetivo foi harmonizar globalmente os reportes de sustentabilidade. O resultado foi o lançamento, em junho de 2023, de duas normas fundamentais: IFRS S1 e IFRS S2.

É muito provável que você já tenha ouvido falar nessas normas. Mas a dúvida central que permanece é: como implementá-las, na prática? 

Este texto pretende responder exatamente a isso!

O que são IFRS S1 e S2?

IFRS S1: divulgação de informações relacionadas à sustentabilidade

A IFRS S1 é a norma geral. Ela estabelece os requisitos para que empresas divulguem informações sobre todos os riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade que sejam materialmente relevantes para investidores e outros usuários do mercado de capitais.

Na prática, a S1 exige que as organizações conectem suas informações de sustentabilidade diretamente à sua estratégia, ao modelo de negócios e à perspectiva financeira. Não se trata de um relatório paralelo sobre boas práticas, trata-se de demonstrar como os temas ESG afetam o valor da empresa no curto, médio e longo prazo.

A norma também é construída de forma compatível com frameworks já consolidados no mercado, como TCFD, SASB e GRI, facilitando a transição para empresas que já adotam algum desses referenciais.

IFRS S2: divulgação de riscos e oportunidades climáticas

Enquanto a S1 abrange todos os temas de sustentabilidade, a IFRS S2 aprofunda o olhar especificamente sobre o clima. Inspirada na estrutura do TCFD, ela exige que as empresas divulguem informações sobre:

  • Riscos físicos: eventos climáticos extremos ou mudanças graduais no clima podem impactar ativos, operações e cadeias de fornecimento.
  • Riscos de transição: mudanças regulatórias, tecnológicas ou de mercado decorrentes da descarbonização da economia podem afetar o modelo de negócios.
  • Oportunidades climáticas: novos produtos ou mercados que surgem da transição para uma economia de baixo carbono.

Além disso, a S2 exige a divulgação de métricas e metas climáticas concretas, como emissões de gases de efeito estufa (GEE) e metas de redução alinhadas a cenários científicos.

Em resumo: a S1 constrói a base geral para toda a divulgação de sustentabilidade (governança, estratégia, gestão de riscos, métricas e metas), enquanto a S2 aplica essa mesma estrutura de forma aprofundada e específica para o tema climático. Isso significa que uma empresa que implementar a S2 já terá parte do caminho percorrido para a S1, e vice-versa.

Por que as normas IFRS de sustentabilidade estão ganhando importância?

Por que empresas precisam relatar nas normas IFRS?

Crescente demanda de investidores por dados comparáveis

Investidores institucionais, como gestoras de fundos, fundos de pensão e bancos de desenvolvimento, precisam avaliar riscos ESG com a mesma rigorosidade com que analisam balanços financeiros. Para isso, precisam de dados padronizados, auditáveis e comparáveis entre empresas e setores. As normas IFRS S1 e S2 foram desenhadas exatamente para atender a essa necessidade, criando uma linguagem comum que facilita a tomada de decisão de alocação de capital.

No Brasil, quem regulamentou formalmente a adoção das normas foi a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), por meio da Resolução 193/2023, que estabelece a obrigatoriedade para companhias abertas. O Banco Central do Brasil (Bacen) e a Superintendência de Seguros Privados (Susep) também vêm sinalizando movimentos de alinhamento a esses padrões, embora ainda não tenham regulamentação equivalente publicada para os agentes sob sua supervisão.

Isso significa que, para um número crescente de companhias brasileiras, adequar-se às normas, além de ser uma escolha estratégica, já é uma obrigação regulatória em curso.

Sua empresa está preparada para a Resolução 193 da CVM? O cronograma de obrigatoriedade das normas IFRS S1 e S2 no Brasil já começou. Antecipar a estruturação dos seus dados e processos de governança é o que garantirá vantagem competitiva e segurança frente aos investidores

Na Civicus, ajudamos sua empresa a navegar por essa transição de forma segura. Faça um orçamento gratuito aqui!

Movimento global de padronização dos reportes ESG

O mercado de sustentabilidade conviveu por anos com a profusão de frameworks

  • GRI para impacto;
  • SASB para materialidade setorial;
  • TCFD para clima;
  • CDP para divulgação ambiental. 

Embora cada um tenha seu valor, a fragmentação gerava confusão, retrabalho e dificuldade de comparação. O ISSB posiciona as normas IFRS como o padrão de convergência global e países como Reino Unido, Austrália, Canadá e Japão já sinalizaram adoção ou alinhamento. 

No Brasil, a CVM formalizou essa adoção por meio da Resolução 193/2023, e o Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS) é o órgão responsável pela tradução e adequação das normas para o mercado local, publicadas como CBPS 01 e CBPS 02, equivalentes às IFRS S1 e S2, respectivamente.

A relação entre sustentabilidade e desempenho financeiro

Um ponto central das normas IFRS é o conceito de materialidade financeira: só são reportadas as informações de sustentabilidade que têm potencial de afetar o valor da empresa, suas perspectivas de resultado ou sua capacidade de acesso a capital. 

Isso conecta definitivamente o ESG ao core do negócio, que ultrapassa os limites de uma agenda paralela de responsabilidade social, tornando-se uma forma de gestão estratégica de riscos e oportunidades.

Como implementar IFRS S1 e S2 na prática

A implementação das normas não precisa ser um processo intimidador. Com a abordagem certa, é possível estruturar a jornada em etapas claras e realizáveis:

1. Realizar um diagnóstico do nível atual de reporte ESG

O ponto de partida é um mapeamento honesto da situação atual, o chamado Gap Analysis

Isso significa avaliar os sistemas e fontes de dados existentes, identificar lacunas nos processos de coleta de informações ESG, analisar a maturidade em governança e definir um roadmap de adequação.

Nessa fase, é fundamental verificar também se a empresa conta com profissionais especializados em ESG e em reportes financeiros ao mercado de capitais, pois isso

dependerá não apenas da implementação das normas, mas da qualidade das próprias ações internas que serão reportadas. 

Empresas que já reportam pelo GRI ou pelo TCFD têm uma vantagem inicial, já que muitos elementos são compatíveis com os requisitos das normas IFRS.

2. Mapear riscos e oportunidades climáticas e de sustentabilidade

Normas IFRS S1 e S2 ajudam a mapear impactos e oportunidades climáticas

Com o diagnóstico em mãos, o próximo passo é conduzir a análise de materialidade financeira. 

A IFRS S1 exige que as empresas considerem os tópicos de divulgação do SASB como materiais para o seu setor específico. Já a IFRS S2 requer a elaboração de uma Matriz de Risco Climático, com avaliação de riscos físicos, como eventos climáticos extremos, mudanças crônicas no clima e impactos na cadeia de suprimentos, e riscos de transição, que incluem mudanças regulatórias, tecnologias emergentes e alterações de mercado. 

Essa etapa também envolve a análise de resiliência climática a diferentes cenários, considerando horizontes de curto, médio e longo prazo.

3. Integrar sustentabilidade à gestão de riscos corporativos

O principal desafio está na integração dos dados ESG às demonstrações financeiras, sustentada por uma governança de dados robusta. Isso implica:

  • revisão de processos internos;
  • integração entre áreas, como ESG, finanças, jurídica e relações com investidores;
  • confiabilidade das informações ao longo de todo o ciclo de reporte.

É fundamental que os conselhos de administração, comitês de auditoria e diretorias executivas assegurem que os temas materiais de sustentabilidade e clima componham a agenda prioritária da organização e sejam efetivamente considerados nas decisões estratégicas.

 4. Definir métricas, indicadores e metas

Sem métricas, não há gestão, e sem métricas auditáveis, não há conformidade com as normas IFRS S1 e S2. 

Essa etapa envolve selecionar os indicadores mais relevantes para investidores no setor da empresa e estabelecer metas climáticas concretas, incluindo a divulgação das emissões de GEE dos Escopos 1, 2 e 3. 

A norma também exige a divulgação de métricas intersetoriais, avaliando quais das sete métricas previstas na IFRS S2 são materiais para o modelo de negócios. Se a empresa utiliza créditos de descarbonização para compensar emissões ou cumprir metas de carbono zero, é necessário divulgar a procedência desses créditos e a verificação por terceiros. 

Para entender mais como cumprir metas de carbono na sua empresa, leia o nosso conteúdo sobre o tema aqui!

A IFRS S2 também trata do plano de transição climática: caso a empresa possua um plano que demonstre como seu modelo de negócio permanecerá relevante e rentável em uma economia de baixo carbono, ela está obrigada a divulgá-lo. A norma não exige a elaboração do plano em si, mas exige a divulgação de qualquer plano existente.

5. Estruturar o disclosure no relatório corporativo

O último passo é a formalização do reporte, que deve estar integrado ao relatório anual ou às demonstrações financeiras da empresa, não publicado de forma paralela. 

A partir de 2027, as companhias abertas brasileiras estarão obrigadas a divulgar o relatório de informações financeiras de sustentabilidade de acordo com as IFRS S1 e S2, com asseguração por auditor externo. Por isso, a estruturação de controles internos robustos, a preparação de documentação e a rastreabilidade das informações são etapas que precisam ser construídas com antecedência. 

Empresas que iniciarem esse processo agora constroem uma vantagem competitiva concreta: mais tempo para ajustar processos e maior qualidade nos dados reportados ao mercado.

Considerações finais

As normas IFRS S1 e S2 sinalizam uma mudança estrutural na forma como o mercado enxerga a relação entre sustentabilidade e valor empresarial. Implementá-las vai além de compliance, é uma oportunidade de estruturar a gestão de riscos, fortalecer a credibilidade junto a investidores e posicionar a empresa de forma mais competitiva em um ambiente de negócios que exige cada vez mais clareza e responsabilidade.

No Brasil, diante da transição organizada pela CVM e pelo CBPS, com obrigatoriedade prevista para 2027 e adoção voluntária já em curso em 2025/2026, é necessário cuidar do tempo. Dessa forma, empresas que iniciarem esse processo agora terão mais tempo para ajustar processos, maior qualidade nos dados e uma narrativa ESG mais robusta para o mercado. No médio prazo, isso se traduz em melhor acesso a capital, redução de custo de dívida e maior resiliência frente às incertezas climáticas e regulatórias.

Na Civicus, apoiamos empresas nessa jornada de adequação e integração da agenda ESG. Se a sua organização quer dar esse passo de maneira estratégica e com suporte especializado, entre em contato e conheça como podemos ajudar.

Autora:

Beatriz Ramos

Referências:

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